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sexta-feira, 2 de junho de 2006

Avaliação dos professores - II


(recebido por e-mail)

Alguém acredita num processo minimamente "isento e imparcial"?

Eu não!...

Ainda na última 4.ª feira, dia em que recebi, a pedido dela, a mãe de uma das minhas alunas (o dia "oficial" de atendimento é na 2.ª feira) abordei este assunto, tendo ela dito frontalmente que achava ridículo ser chamada a avaliar-me... porque não se sentia capaz de o fazer!
(E não se trata de "incapacidade intelectual", pois tem formação superior)

Simplesmente, sente que o nosso trabalho tem demasiadas condicionantes e sente que seria injusto avaliá-lo (ao trabalho) ou avaliar-me apenas pelo que a filha de 7 anos aprende... ou lhe conta em casa. Avaliar a minha disponibilidade em a receber a ela ou a qualquer outro... é também "injusto e insuficiente", porque não é essa disponibilidade que faz de mim "bom ou mau professor"!

Tenho lido alguns argumentos a favor desta avaliação. Uns fazem-se reflectir... outros fazem-me soltar uma sonora gargalhada.

Dizem algumas pessoas que seria uma forma de "captar e envolver mais a participação dos pais na vida escolar"!

Ó meus amigos: então se os pais, que são os principais responsáveis pelos filhos e que, apenas e só por esse motivo, deviam envolver-se na sua vida escolar, mas que, para além desse facto "natural", ainda têm o professor ali à disposição todos os dias, têm ainda um dia específico de atendimento, têm reuniões alargadas com o professor de vez em quando, têm uma Associação de Pais (em que muitos nem sequer se inscrevem), têm representantes nos órgãos do Agrupamento (Assembleia de Escola, Conselhos de Turma, Conselho Pedagógico...) então, dizia eu, se os pais, apesar de tudo isto não têm tempo, interesse ou vontade em participarem mais na vida escolar dos seus filhos... será pelo simples facto de poderem participar na avaliação dos professores que se vão interessar mais pelas aprendizagens e comportamentos dos mesmos e, por arrastamento, em toda a vida escolar?

Mas alguém acredita nisto?

Alguém acredita que a mãe do "Miguel", que nem as "notas" do filho vai buscar (e olhem que há muitos "Miguéis" por esse país fora), nem vai à escola quando a professora lhe manda recado pela Caderneta Escolar... só por causa desta avaliação dos professores vai participar mais?

Alguém acredita que, por causa de poder participar na avaliação dos docentes, a mãe da "Maria" irá mais vezes à escola, ela que tanto se desculpa com o facto de ter "horários horríveis e um patrão inflexível"?

Alguém acredita que o pai do "José", que passa a semana a trabalhar longe de casa e dos filhos, com esta participação na avaliação dos professores vai conseguir alterar a sua vida de modo a estar mais vezes na escola?

Sou muito pragmático: eu não acredito... mas digo mais: acredito que o Ministério também não acredita. Simplesmente está a arranjar mais uma forma de "achincalhar ainda mais a dignidade da classe docente"... que está "aqui mesmo a jeito" para culpar pelo insucesso dos alunos e de políticas educativas erradas e erráticas!

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10 Comments:

  • Quando colocamos todos os professores no mesmo saco e os acusamos dos maus resultados escolares dos nossos filhos, não estaremos a fazer exactamente o mesmo que acaba de fazer em relação aos pais? As excepções não podem impedir-nos de sermos justos. Que há bons e maus professores e pais presentes e ausentes da vida escolar dos seus filhos, já todos sabemos. Que os professores devem estar sujeitos a uma avaliação, também me parece não ser questionavel. Então porquê tanto alarido? Os pais devem ser excluidos dessa avaliação? Tem a certeza? E tem filhos?

    leonoralmeida@sapo.pt

    By Anonymous Anónimo, at sexta-feira, junho 02, 2006 9:40:00 da tarde  

  • Eu não acuso os pais de nada. Se ler bem... nem sequer é essa a minha intenção. Falo de contigências... que me irão condicionar a mim próprio também como pai.
    (Sim, sou pai e não quero participar no processo de avaliação dos professores da minha filha, quando os tiver. Ah, e como Coordenador do Conselho de Docentes - que este ano sou e poderei voltar a ser - também não quero avaliar o desempenho dos meus colegas.)

    A questão que coloco é bem outra. É que vai ter poder de decidir sobre a minha vida profissional tanto o "pai ausente" como o "pai presente"... ou tanto o que passou o ano a boicotar o meu trabalho como aquele que o apoiou. Isso será justo?

    Não creio que seja!

    By Blogger NP, at sexta-feira, junho 02, 2006 11:04:00 da tarde  

  • Eu queria notar que o mote principal da minha argumentação é para rebater a ideia de alguns de que os pais passariam a participar mais na vida escolar. E a minha pergunta era e é esta:

    "será pelo simples facto de poderem participar na avaliação dos professores que [os pais] se vão interessar mais pelas aprendizagens e comportamentos dos mesmos [dos filhos] e, por arrastamento, em toda a vida escolar?"

    E repito: não acredito nesta ideia de "causa-efeito"...

    By Blogger NP, at sexta-feira, junho 02, 2006 11:34:00 da tarde  

  • E para que fique claro: concordo que os professores sejam avaliados. Têm de ser! O processo actual pode até ser considerado quase e apenas burocrático... e deve ser mudado/melhorado... mas o que me parece, à partida, é que os pais não reunem, por variadíssimas razões, as melhores condições para o poderem fazer de modo absolutamente "isento e imparcial... e justo"!

    E também falo como pai...

    A ideia que me assalta, por outro lado, é assim um pouco como um juiz que decidisse em "causa própria".

    Seria terrivelmente injusto e obsceno ter três ou quatro pais que nunca tivessem colaborado comigo e que até tivessem boicotado o meu trabalho (sei lá... por exemplo três ou quatro pais de alunos mal comportados de que tenha tido necessidade de me queixar)... no fim do ano terem o poder para "lixar" ainda mais a minha vida do que me tinham "lixado" durante o ano!...

    Mas se eu sou mesmo "mau professor"... não devo ser penalizado? Claro que sim! Mas para isso não existe a possibilidade de apresentarem uma queixa fundamentada à Inspecção Geral do Ensino?

    Sejamos claros: toda esta nova forma de avaliação está preparada para impedir a progressão dos professores na carreira, até porque estão previstas cotas de acesso aos "niveis superiores", como o "Excelente"! É mentira?

    Este facto, para mim, é revelador e significativo... e apenas pretende criar clivagens entre os próprios professores!

    By Blogger NP, at sexta-feira, junho 02, 2006 11:51:00 da tarde  

  • A avaliação individual é desnecessária... pelo esforço que exige e pelos (poucos) resultados que permite.

    http://ocontradito.blogspot.com/2006/06/o-estatuto-da-carreira-docente-iv.html

    By Blogger ocontradito, at quinta-feira, junho 15, 2006 12:00:00 da tarde  

  • O problema não está na avaliação. Está na moda que se tornou o verbo avaliar. Hoje em dia, toda a gente gosta de falar em avaliação e em cultura de excelência. O ensino não foge à regra. Lembro-me bem que as primeiras palavras da Sr.ª ministra da educação, quando tomou posse, foram que queria uma escola de excelência. Isto, a moda em que isto se tornou, o uso da palavra excelência, revelaram logo a mediocridade rasteira da criatura.
    A excelência não se proclama, nem existe por se proclamar.
    A avaliação está muito bem, quando se reconhece ao avaliador capacidade, legitimidade, competência e autoridade para o fazer.
    Há dois anos, os inquéritos de avaliação dos professores do ensino politécnico pediam aos alunos que assinalassem as suas escolhas preenchendo a negro os círculos correspondentes, tendo o cuidado de "NÃO ULTRAPASSAR OS CANTOS DOS MESMOS". Quando o avaliador da avaliação fala em "cantos do círculo", estamos conversados sobre a excelência e a utilidade do exercício.
    Declaração de interesses: não sou professor abrangido pos este disparatado sistema de avaliação de propfessores.

    By Blogger Funes, o memorioso, at sexta-feira, junho 16, 2006 10:01:00 da manhã  

  • Cara Leonor Almeida, autora do primeiro comentário:
    A primeira e indispensável qualidade de um avaliador é a independência, a imparcialidade, a neutralidade e a isenção em relação ao objecto avaliado.
    Os pais devem ser excluídos da avaliação dos professores excatamente pela mesma razão que os doentes não avaliam os médicos, os réus não avaliam os juízes e os avaliadores não avaliam a casa onde moram.

    By Blogger Funes, o memorioso, at sexta-feira, junho 16, 2006 10:06:00 da manhã  

  • Esclarecimento adicional:
    Cara Leonor Almeida,
    Tenho dois filhos, uma rapariga e um rapaz, de 8 e 5 anos, respectivamente.

    By Blogger Funes, o memorioso, at sexta-feira, junho 16, 2006 10:07:00 da manhã  

  • Pode então esclarecer-me porque razão uma parte dessa avaliação é exactamente uma auto-avaliação? Haverá 'avaliador' menos isento que o próprio?

    Leonor Almeida

    By Anonymous Anónimo, at sábado, julho 01, 2006 12:18:00 da manhã  

  • De qual avaliação? A do "modelo antigo" ou a do "novo modelo"?

    É que, para mim, o que o professor fazia no "modelo antigo" era um relatório... como se fazem milhões por esse país todo, em qualquer empresa. Obviamente tinha um carácter de "auto-avaliação", como a que pedimos aos alunos para fazerem no final de cada ano lectivo!

    Tinha a enorme vantagem de "obrigar" o professor a fazer uma reflexão exaustiva sobre o seu trabalho e sobre os factores condicionantes do mesmo.

    Aquele relatório era depois lido e "avaliado" por uma comissão (faço parte de uma e li-os) e cruzado com outros itens de avaliação: relação pedagógica com os alunos, frequência e aprovação em acções de formação, exercício de cargos pedagógicos, etc.

    Também já foi dito e "re-dito" que havia necessidade de mudar algo nesse modelo.

    O que se contesta é, não a mudança, mas o carácter "extremista" e "radical" do novo modelo proposto! E quando se contesta a participação dos pais nessa avaliação é porque, por mais que não queiram que assim seja, eles, para além de serem "parte interessada", são "elementos ausentes" ao trabalho do professor. Os pais não acompanham, não sabem, não assistem ao modo como o professor trabalha... e são, em muitos casos que conheço, obstáculos ao bom trabalho do próprio professor!

    Exemplos disto, neste final de ano no meu Agrupamento, não têm faltado... ao ponto de afirmar categoricamente que não vejo um único professor feliz, no grupo de perto de 40 que coordeno!

    By Blogger NP, at sábado, julho 01, 2006 2:03:00 da tarde  

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